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29 DE MAIO: UM CHAMADO À LUTA COLETIVA
29/Maio/2025 às 8:00 – 17:00
Neste 29 de maio, Dia da Geógrafa e do Geógrafo, a Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local São Paulo (AGB-SP) se dirige à comunidade geográfica para parabenizá-los/as, mas também destacar outros sentidos da data de hoje, além da comemoração: a denúncia dos ataques que a geografia e as universidades têm sofrido, mas, sobretudo, um chamado para podermos nos organizar e construir uma luta coletiva.
Vivemos um momento crítico. A Geografia (e diversos outros campos, sobretudo das Ciências Humanas), enquanto campo de conhecimento, prática social e formação profissional, encontra-se sob vários ataques, inserida em um cenário de grandes reformulações que colocam em risco sua autonomia, diversidade teórico-epistemológica e presença nos currículos escolares e universitários.
Assistimos a uma série de medidas que exigem urgentemente nossa resposta coletiva, sendo algumas delas:
- A reformulação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos de Geografia, proposta de forma antidemocrática e na surdina da pandemia, conduzida de forma pouco transparente e sem o devido debate público. Esta medida ameaça reduzir ainda mais o espaço da formação crítica e comprometida socialmente. Tal proposta foi enfrentada pela comunidade geográfica reunida na AGB, cujo processo, ainda que paralisado, não está vencido;
- O chamado “Enem dos Professores“, com possibilidade de padronizar a formação docente, subordinando os currículos das diversas licenciaturas espalhadas no país a um modelo avaliativo único e excludente, que pode desprezar outras abordagens teóricas além daquelas do mainstream. Em um processo pouco claro e sem precedentes, mas com grande potencial de engessar a formação em licenciatura de Geografia. A AGB propõe a criação de um Grupo de Trabalho em escala nacional, visando compreender esse novo formato, avaliar seus efeitos sobre a formação docente e construir posicionamentos coletivos;
- A redução na procura pelas licenciaturas, evasão e a ameaça de fechamento dos cursos de Licenciatura em Geografia, sobretudo em instituições públicas, revela o desmonte da formação de professores, em especial da Geografia;
- Frente ao desenfreado produtivismo acadêmico, a AGB, através de um Grupo de Trabalho de Publicações, elaborou o “Manifesto da Geografia pela Ética na Publicação Científica”. O documento afirma a necessidade de enfrentar as más condutas na produção, avaliação e circulação do conhecimento na Geografia. Com isto, os documentos produzidos pela AGB propõem diretrizes para fortalecer o rigor acadêmico, as boas práticas editoriais e os compromissos sociais da pesquisa, contrapondo-se às lógicas que desvalorizam a pluralidade teórica e epistemológica, reafirmando o compromisso com uma produção geográfica crítica, de qualidade e alinhada aos interesses coletivos;
- A reformulação da avaliação da CAPES ameaça o futuro da pesquisa crítica. Essa mudança no sistema de avaliação pode impactar toda a cadeia de produção e disseminação do conhecimento geográfico. Os critérios de avaliação da CAPES não assumem apenas o caráter avaliativo, mas também se tornam referência na elaboração dos procedimentos de seleção em concursos públicos, ingresso nos programas, distribuição de bolsas, progressão de carreira acadêmica, entre outras formas que podem direcionar e, sobretudo, pressionar a prática dos docentes e discentes. Por isso, é urgente que nos posicionemos ativamente diante da adoção dos novos critérios e processos de avaliação da pós-graduação;
- A proposta de reestruturação da pós-graduação no Estado de São Paulo, em parceria entre CAPES e FAPESP, revela a tentativa de submeter a formação acadêmica às demandas do setor privado, impondo prazos inviáveis, orientações superficialmente técnicas e esvaziamento das pesquisas de qualidade;
- A prática, cada vez mais comum, da exclusão de vagas para geógrafas e geógrafos em cargos de concursos públicos nos quais, conforme a lei que regulamenta a nossa profissão (Lei 6.664/79), podemos ocupar.
- No âmbito das políticas locais, enfrentamos a redução da carga horária de Geografia na educação básica, já em curso no estado de São Paulo e com tendência de expansão para outros estados.
- A invasão de grupos fascistas no prédio da Geografia-História da USP, como um episódio que nos atenta para a necessidade do enérgico combate, para além da teoria, em ações de defesa da livre organização política no âmbito estudantil, sindical e da própria universidade, além da importância da luta contra a extrema-direita;
- Por fim, citamos também o avanço do PL da Devastação. A criação da Licença Ambiental Especial (LAE), que permite às próprias empresas licenciarem projetos com potencial de risco, é mais uma ofensiva do capital contra a vida e os territórios. Ao enfraquecer o controle público e acelerar a destruição em nome do lucro, esse projeto ameaça diretamente o futuro do território brasileiro, ironicamente no mesmo período em que se organiza a COP30 em Belém-PA. A Geografia, enquanto campo crítico e comprometido com as lutas socioambientais, deve se posicionar com clareza e força contra esse retrocesso.
Diante desse cenário, temos um duplo desafio: resistir e construir alternativas. A Geografia do futuro — se queremos que ela exista — dependerá da nossa capacidade de mobilização, articulação e luta coletiva urgente.
Este é um chamado. Um chamado à ação, à união, à formação política. Um chamado à organização nos espaços que temos: a AGB e suas Seções Locais, a ANPEGE, os departamentos universitários, os centros e diretórios estudantis, os sindicatos, as organizações políticas e os movimentos sociais.
Precisamos ocupar esses espaços e construir um movimento em defesa da Geografia, da educação pública, gratuita e de qualidade, e do pensamento crítico. O Dia da Geógrafa e do Geógrafo deve ser, acima de tudo, um dia de luta. Luta por um campo do conhecimento que não se furte a enfrentar as contradições do mundo — desde as pautas que nos afetam mais cotidianamente nas universidades como a luta por permanência, infraestrutura e democratização do acesso ao ensino (sobretudo com adoção de cotas trans e vestibular indígena), até as mais gerais como o enfrentamento às injustiças sociais, a destruição ambiental, a precarização do trabalho e o desmonte da educação.
Que este dia não seja somente uma comemoração, mas o marco de um compromisso coletivo com a Geografia que queremos e precisamos construir.
Associação dos Geógrafos Brasileiros
Seção Local São Paulo
Gestão Além do Espaço
